Total de visualizações de página

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

4 segundos

Tudo muda depois de pular. Mesmo que antes você estivesse decidido, não é a mesma coisa quando você não pode mudar de ideia. O ser humano tem essa peculiaridade: Se sentir mais confortável quando pode voltar atrás e mudar tudo. Não é um crime, é só direito de escolha. Mesmo que você pense que aquilo que você fez em determinada ocasião não tem conserto, não tem volta ou remédio, acredite, tem. Você disse a sua mãe que sempre a odiou? Ora essa, peça perdão. Acha que não vai funcionar? Não seja fraco, você mesmo sabe que é capaz de mudar a situação a seu favor. Está bem aí, dentro de você. Nunca ouviu falar que a única coisa que não tem remédio é a morte? Pois é, amigo, é a mais pura verdade.
Já parou pra pensar no que você pensaria nos seus últimos 4 segundos de vida? Será que é verdade que toda a sua vida passa diante dos seus olhos? Bem, digamos que de onde eu estou, eu posso te contar alguma coisa. Eu tinha dito coisas que não devia. Tinha feito escolhas que mais tarde vim a julgar erradas. Eu caminhei por um caminho que não era meu. Eu não tinha mais ninguém. Todos os "alguéns" que eu tinha, encontraram seus outros "alguéns". Não, não. Eu não culpo ninguém. Ora essa, eu não estou mais em condição de julgar.
Quando eu me despedi do meu cachorro àquela manhã, eu sabia que não voltaria, ele não. Morar num lugar como aquele nunca tinha me feito pensar no quão fácil era me despedir. As pedras lisas e molhadas dificultando o meu caminho, pareciam tentar me convencer a dar meia volta. Mas eu tinha tomado minha decisão. Meu cachorro tinha comida por até três dias, até que o delegado o encontrasse. Acho que poderiam dar por minha falta na repartição durante esse tempo. Então eu só continuei. Eu não precisava de sapatos, precisava? Então eles vão primeiro, mergulhar do penhasco nas águas cortantes, como meu último ato de travessura infantil. Meu último sorriso nasceu do lado esquerdo do rosto, quando eu percebi que nunca mais veria os sapatos horrorosos que a Linda me dera naquele natal. E então eu pulei.
Tudo muda depois de pular. Tudo o que eu tive foram 4 segundos, que eu só viria a descobrir depois. Não, minha vida não passou nos meus olhos como num filme. Isso eu posso dizer com certeza. Eu não pensei em ninguém que eu houvesse realmente conhecido. Não pensei em como seria se eu não tivesse pulado. Em como seria se eu tivesse dito a Linda pra não ir embora. Em como meu cachorro se viraria sem minha mão pra acariciar a cabeça velha dele toda noite. Eu não tinha porque pensar nisso.
Tudo o que eu pensei foi...você. Você que podia não pular, depois de tudo que eu falei. Você que pode não escolher a mediocridade da vida que eu tive. Você que pode ainda dar um passo em direção ao orgulho. Você que ainda vive.


Jeremy, de muito longe.